Não sou da comunidade, só uso os direitos

Autointitulada “trans de direita”, Sophia Barclay resolveu testar um novo gênero político: o drama contraditório com pitadas de comédia involuntária. Ao anunciar a pré-candidatura a deputada federal pelo Partido Novo, foi recebida com ataques transfóbicos justamente por quem ela costuma defender. Aí o perfil saiu do ar, a polêmica cresceu e o enredo ficou ainda mais previsível. Como diria Odete Roitman, de Vale Tudo, em uma de suas frases mais eternas: “Eu não vou perder meu tempo com gente pequena meu bem.” Pena que a realidade não perca tempo com incoerências.

Sophia critica pautas LGBTQIA+ com a convicção de quem esqueceu — ou finge esquecer — que os direitos que hoje usufrui não caíram do céu nem brotaram do algoritmo. Vieram de gente que apanhou, foi presa, silenciada e morta para que outras pudessem existir com um mínimo de dignidade. Gente que botou o corpo na linha enquanto outros agora posam de exceção meritocrática. E aqui cabe perfeitamente uma pérola de Félix, de Amor à Vida: “Eu sou mau, mas não sou bobo criatura.” Porque negar a luta alheia enquanto colhe seus frutos não é ideologia, é oportunismo.

O discurso de “não faço parte da comunidade” soa quase como aquele parente que aparece no Natal, come tudo, critica a ceia e ainda reclama da sobremesa. Sophia rejeita o movimento, mas se beneficia dele. Ataca o grupo, mas se apoia nas conquistas históricas dele. É o famoso “subi sozinha”, ignorando quem construiu a escada. Ou, como diria Crodoaldo, de Fina Estampa, com a elegância que lhe era peculiar: “Isso é uma falta de respeito danada, minha senhora.”

No fim das contas, a candidatura expõe mais do que um projeto político: revela a velha tentativa de agradar quem nunca vai aceitar sua existência por completo. E quando o conservadorismo mostra os dentes, não adianta surpresa. Porque, como já ensinou a dramaturgia brasileira, quem cospe no prato que come corre sério risco de ficar com fome — e ainda ouvir, de bônus, um sonoro “me poupe”.

 

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