Entre desculpas, notas e delegacia, episódio escancara como o afeto LGBTQIAPN+ ainda incomoda.
O que era para ser apenas uma noite comum em um bar de Missão Velha, no interior do Ceará, terminou em delegacia, indignação nas redes sociais e um debate que o Brasil já conhece bem: até onde vai o direito do dono do estabelecimento e onde começa o preconceito explícito. No último dia 10 de dezembro, um casal de mulheres foi expulso de um bar após trocar um beijo no local — gesto simples, cotidiano e absolutamente legal.
Vídeos que circularam nas redes sociais mostram o proprietário do Boteco VM abordando as jovens de forma ríspida, exigindo que pagassem a conta e deixassem o estabelecimento imediatamente. Nas imagens, ele afirma que “não aceita esse tipo de coisa” e justifica a atitude alegando que o bar seria um “ambiente de família”. O detalhe que causou revolta é simples e contundente: o “tipo de coisa” citado era apenas um beijo entre duas mulheres.
A repercussão foi imediata e dividiu opiniões. O caso foi registrado na Polícia Civil como crime de homofobia, enquanto internautas questionaram o uso recorrente da expressão “ambiente de família” como argumento seletivo — quase sempre acionado quando demonstrações de afeto fogem do padrão heteronormativo.
Diante da pressão, o dono do bar gravou um vídeo tentando se explicar. Disse não ter nada contra a comunidade LGBTQIAPN+ e afirmou conviver bem com pessoas do grupo, inclusive dentro da própria família. “Não sou contra homossexual, lésbica ou quem pertence ao grupo LGBT”, declarou, numa tentativa de dissociar discurso e prática, apesar de as imagens mostrarem exatamente o oposto.
O estabelecimento também divulgou uma nota alegando que os fatos teriam sido “manipulados” e que a retirada das clientes ocorreu por “comportamentos inadequados”. A versão, no entanto, cai por terra no próprio vídeo: ao ser questionado sobre o que teria de errado, o proprietário responde sem rodeios que as jovens estavam “se beijando”.
Uma das vítimas, que preferiu não se identificar, afirmou que ela e a namorada apenas trocaram gestos de afeto, “como qualquer casal”. Nada além disso. Nenhum excesso, nenhuma conduta inadequada — apenas carinho, daqueles que passam despercebidos quando protagonizados por casais heterossexuais.
Em nova tentativa de defesa, o bar alegou o chamado “direito de admissão”, afirmando que a decisão teria sido baseada em normas internas. Especialistas e ativistas, no entanto, lembram que esse direito não é absoluto e não pode ser usado para justificar discriminação, prática tipificada como crime no Brasil.
Entre os inúmeros comentários que surgiram nas redes, um em especial sintetizou o sentimento de frustração e decepção. Uma internauta, que costumava frequentar o bar com a família, afirmou que sempre foi bem recebida, inclusive quando estava acompanhada da namorada. Ainda assim, deixou claro que, diante do episódio, prefere deixar de ser cliente. “Quem faz o bar é o cliente”, escreveu, ressaltando que o problema não foi um pedido de respeito, mas a intolerância explícita diante de um beijo.
O caso escancara uma contradição antiga: em pleno 2025, ainda há quem veja afeto como afronta, desde que venha de quem foge à norma. E enquanto beijos seguem sendo tratados como ameaça à moral, o preconceito continua, infelizmente, servido sem restrições.

Dono nega preconceito, mas imagens e relatos levantam questionamentos sobre seletividade e discriminação em espaços públicos – Foto: Reprodução