
Erasmo Carlos, o eterno “Tremendão”, foi muito mais do que um cantor: ele foi um dos pilares da música brasileira, um artista que atravessou gerações com autenticidade, carisma e uma obra que continua pulsando no coração do país. Nascido Erasmo Esteves em 5 de junho de 1941, no Rio de Janeiro, cresceu na Tijuca e desde cedo se apaixonou pelo rock and roll, influenciado por ícones como Elvis Presley e Little Richard. Ainda jovem, formou amizade com Tim Maia, com quem dividiu os primeiros acordes e sonhos musicais.
Mas foi ao lado de Roberto Carlos que Erasmo construiu uma das parcerias mais lendárias da música nacional. Juntos, compuseram centenas de canções que se tornaram trilha sonora da vida de milhões de brasileiros. Entre elas, destaca-se “É Preciso Saber Viver”, lançada em 1974, uma reflexão poética sobre resiliência e sabedoria diante dos desafios da vida. A música, com sua mensagem atemporal, foi regravada por diversos artistas e permanece como um hino de esperança.
Nos anos 1960, Erasmo foi protagonista da Jovem Guarda, movimento que trouxe o rock para o centro da cultura brasileira.
Com seu estilo irreverente, voz marcante e letras que falavam diretamente à juventude, ele conquistou o público e se tornou um ícone pop. O apelido “Tremendão” refletia sua presença de palco vibrante e seu jeito despojado, que cativava multidões.

Ao longo das décadas, Erasmo se reinventou sem perder a essência. Flertou com o soul, o samba-rock, a MPB e até o psicodelismo, sempre com sensibilidade e autenticidade. Suas composições abordavam temas como amor, liberdade, espiritualidade e crítica social, revelando um artista inquieto e profundo. Além de cantor e compositor, foi também ator, escritor e multi-instrumentista, deixando sua marca em diversas expressões artísticas.
Na vida pessoal, enfrentou momentos difíceis, como a perda de sua esposa Narinha em 1995, que inspirou composições mais introspectivas e emocionais. Em 2019, casou-se com Fernanda Passos, com quem viveu até seus últimos dias. Erasmo faleceu em 22 de novembro de 2022, aos 81 anos, no Rio de Janeiro, deixando um legado imenso e uma saudade profunda.

Mais do que um artista, Erasmo Carlos foi um símbolo de gerações. Um gigante gentil que cantou o Brasil com alma, paixão e verdade. Sua obra permanece viva, ecoando nas rádios, nas playlists e nas lembranças de quem cresceu ouvindo sua voz. Como ele mesmo cantou, “mesmo que seja eu”, sua música continua sendo de todos nós.
Além da música, Erasmo também se aventurou como escritor, ator e pensador. Seu livro autobiográfico, Minha Fama de Mau, revela um homem generoso, bem-humorado e profundamente humano. Ele não se colocava acima de ninguém — pelo contrário, fazia questão de se mostrar acessível, como um amigo que canta o que você sente, mesmo sem saber.
Mais do que um cantor, ele foi um cronista musical do Brasil — alguém que, com acordes e palavras, traduziu o país em suas contradições, esperanças e afetos. O Tremendão não era apenas um artista: era um sentimento. E esse sentimento, felizmente, não tem fim.
Um apaixonado pelo rock
Erasmo Carlos foi moldado por uma rica tapeçaria de influências que atravessaram fronteiras, estilos e gerações. Desde os primeiros acordes, sua paixão pelo rock and roll americano foi decisiva — nomes como Elvis Presley, Chuck Berry e Little Richard foram fundamentais para despertar nele o desejo de fazer música com atitude, ritmo e alma. Essa influência se manifestou não só no som, mas também na estética e na postura de palco que ele adotou nos anos iniciais.
Outro nome essencial em sua formação foi Tim Maia, amigo de infância e parceiro musical nos tempos do grupo The Sputniks. Tim apresentou Erasmo ao universo do soul e do funk, ampliando seu repertório e sua sensibilidade musical. A amizade com Roberto Carlos, por sua vez, não foi apenas uma parceria artística — foi uma irmandade criativa que durou décadas. Juntos, eles criaram uma linguagem própria, misturando o romantismo da música brasileira com a energia do rock.
Na década de 1970, Erasmo se aproximou da Tropicália e da MPB, absorvendo influências de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Jorge Ben e Gal Costa. O álbum Carlos, Erasmo (1971) é um marco dessa fase, com faixas escritas por Caetano e Jorge Ben, revelando um artista em plena reinvenção. Ele também se inspirou na poesia urbana de artistas como Chico Buarque e na irreverência de Rita Lee, com quem dividiu palcos e projetos.
Além disso, Erasmo sempre teve um olhar atento para o cotidiano brasileiro. Suas letras refletem influências da cultura popular, da espiritualidade e das questões sociais, o que o tornou um cronista musical do país. Com o tempo, ele passou a influenciar novas gerações, sendo reverenciado por artistas como Liniker, Maria Gadú, Los Hermanos e Maglore, que reconheceram nele um mestre e um pioneiro.
Em resumo, Erasmo Carlos foi um artista que soube beber de muitas fontes — do rock ao samba, do soul à MPB — e transformar tudo isso em uma obra singular, vibrante e profundamente brasileira.
Erasmo e Roberto: Uma amizade que virou canção

A história da música brasileira não seria a mesma sem a amizade entre Erasmo Carlos e Roberto Carlos. Mais do que parceiros artísticos, eles foram irmãos de alma, cúmplices de uma jornada que atravessou décadas, estilos e gerações. O encontro entre os dois aconteceu no final dos anos 1950, quando o rock começava a ganhar espaço no Brasil. Unidos pela paixão por Elvis Presley e pelo som vibrante do rock and roll, os dois jovens se reconheceram como semelhantes — inquietos, sonhadores e determinados a fazer música com identidade própria.
Foi Tim Maia, amigo de infância de Erasmo, quem apresentou Roberto a ele. Na época, Roberto fazia parte da banda The Sputniks, e Erasmo logo se juntaria ao grupo The Snakes, que acompanhava Roberto em suas primeiras apresentações. A afinidade musical se transformou em amizade verdadeira, e logo os dois começaram a compor juntos. A química era imediata: Roberto trazia a melodia, Erasmo lapidava as palavras. Juntos, criaram mais de 500 canções, muitas delas eternizadas na memória afetiva do país.
Nos anos 1960, a parceria ganhou força com o programa Jovem Guarda, apresentado por Roberto, Erasmo e Wanderléa na TV Record. O trio se tornou símbolo de uma geração, e Erasmo, com seu jeito irreverente e carismático, ganhou o apelido de “Tremendão”. Enquanto Roberto era o “Rei”, Erasmo era o braço direito, o confidente, o parceiro de todas as horas. A amizade entre os dois era tão sólida que Erasmo chegou a adotar “Carlos” como sobrenome artístico, em homenagem ao amigo e ao produtor Carlos Imperial.
Ao longo dos anos, mesmo com caminhos artísticos distintos, os dois nunca se afastaram. Em 1977, Roberto compôs a canção “Amigo” como uma homenagem a Erasmo. A música, apresentada em um jantar íntimo, emocionou profundamente o Tremendão, que descreveu o momento como um mar de lágrimas. A letra dizia tudo o que ele sentia — e o que o Brasil inteiro reconhecia: aquela era uma amizade verdadeira, rara, feita de respeito, admiração e afeto.
Como toda relação longa, houve também momentos de tensão. Uma vez, por um erro de crédito em um programa de TV, os dois ficaram seis meses sem se falar. Mas a reconciliação veio com a mesma força da amizade que os unia. Erasmo sempre dizia que só discutiam por causa de música — e mesmo assim, era coisa de trabalho, nunca pessoal.
Até o fim da vida de Erasmo, em 2022, Roberto esteve presente. Em entrevistas, o Rei sempre se referia a ele como “amigo de fé, irmão camarada”. A dor da perda foi pública e profunda, mas o legado da amizade permanece. As canções que criaram juntos continuam vivas, tocando corações e contando, em versos e melodias, a história de uma das parcerias mais bonitas da música brasileira.
Mais do que compositores, Erasmo e Roberto foram testemunhas um do outro. Cresceram juntos, amadureceram juntos, e juntos escreveram uma parte essencial da cultura nacional. A amizade deles é uma prova de que, quando há afeto verdadeiro, a arte floresce — e permanece.