Projeto reforça a importância do acolhimento, da escuta e da compreensão humana como caminhos para transformar vidas no espectro autista


Há trajetórias que nascem do acaso, mas encontram, no caminho, um propósito maior. Assim pode ser contada a história de Sérgio Teodoro A. Teodoro, psicólogo clínico e institucional, neuropsicólogo, professor, escritor e fundador da Egrégora Servatus e do CVA – Centro Vínculo Autista, em Piracicaba. Mais do que títulos, sua vida é marcada pela prática do acolhimento, pela escuta sensível e pelo compromisso com a dignidade humana, valores que o aproximaram de um tema que transformaria sua carreira e sua visão de mundo: o autismo.
A relação de Sérgio Teodoro com Piracicaba começou em 1993, quando ingressou no Seminário dos Padres Xaverianos. A experiência religiosa plantou nele o senso de missão, de empatia e de serviço ao outro, algo que se tornaria a base de sua atuação profissional.
Mais tarde, ao cursar Psicologia na Unimep (Universidade Metodista de Piracicaba), mergulhou nas ações sociais e voluntárias. Durante a graduação, Sérgio Teodoro também estagiou no antigo Hospital Psiquiátrico Cesário Mota, em Santa Teresinha. Experiência que marcaria para sempre sua relação com a saúde mental e com a compreensão da diversidade humana.
Foi nesse hospital, em 1997, que Sérgio Teodoro teve seu primeiro contato com pessoas autistas. Na época, o autismo ainda era pouco conhecido e frequentemente confundido com esquizofrenia. “Muitas vezes, por outros profissionais, o autismo era tratado como uma subdivisão da esquizofrenia”, recorda. “Aplicávamos testes psicológicos em pacientes e, muitas vezes, eles recebiam choques encefálicos e tratamentos inadequados, porque se acreditava que era possível ‘ligar’ algo que não estava desligado. Mas o autismo é um transtorno do neurodesenvolvimento. A pessoa autista não escolheu ser autista, ela simplesmente é”, afirma.
A partir daquele momento, algo mudou. Sérgio Teodoro percebeu que havia ali um campo vasto e mal compreendido, uma área onde faltava sensibilidade, ciência e, sobretudo, humanidade. “O autista não precisa ser curado, pois não é uma doença”, diz ele. “Precisa ser compreendido, respeitado e incluído dentro de suas singularidades”.
A paixão que virou propósito
Ao longo dos anos, Sérgio Teodoro seguiu trabalhando com diferentes públicos, pessoas em sofrimento mental, dependentes químicos, alcoólatras, crianças em vulnerabilidade social e idosos abandonados. Criou projetos, revistas, cursos e campanhas. Mas foi no início da década de 2010 que o autismo voltou com força à sua vida.
Já em consultório, passou a atender pessoas autistas e suas famílias, realizando visitas domiciliares, estudos de caso e encontros de orientação. “Foi aí que eu realmente me apaixonei pelo tema. Percebi que cada pessoa autista é única, e que não existem duas histórias iguais”, explica. “É como uma impressão digital: cada um tem um comportamento, uma forma de se expressar, de reagir ao mundo. Por isso, o atendimento precisa ser humano, individual e empático”.
Em 2017, Sérgio Teodoro iniciou as bases do que viria a ser o CVA – Centro Vínculo Autista, um espaço de acolhimento e estudo voltado à compreensão profunda do Transtorno do Espectro Autista (TEA). Mais do que um centro terapêutico, o CVA nasceu como um projeto de vínculo — uma palavra que, para Sérgio Teodoro, é a essência do trabalho com o autismo. “Antes de aplicar teoria, é preciso se aproximar. Sentar-se ao lado, olhar nos olhos, escutar. É ali que começa o vínculo, e o vínculo é o que transforma”.
Com sua experiência como professor e psicólogo, Sérgio Teodoro vê a escola como um dos principais campos de desafio e esperança. Para ele, o discurso da inclusão ainda está distante da prática. “Quando falamos em inclusão, muitas vezes é por imposição judicial. A escola aceita o aluno autista porque é obrigada, mas não está preparada para acolher. O professor não foi formado para isso, o currículo não é adaptado, e a estrutura física nem sempre é adequada”.
Segundo ele, a solução está em um investimento de longo prazo, voltado à formação dos agentes escolares, desde a direção até a equipe de apoio. “A inclusão real exige preparo, paciência e consciência social. O autismo é um espectro. Isso significa diversidade. Cada criança autista vai reagir de um jeito. O papel da escola é aprender a lidar com essa diversidade sem isolar ninguém”.
A visão de Sérgio Teodoro sobre o autismo é profundamente humana. Ele rejeita qualquer ideia de cura e reforça a necessidade de compreender o autismo como parte da identidade da pessoa. “A pessoa autista não sabe o que é não ser autista. Ela nasceu assim. E isso não é um problema, é uma forma diferente de perceber o mundo”.
Para ele, o maior erro ainda está na tentativa de “corrigir comportamentos”, sem entender o que eles expressam. “Muitos profissionais ainda tratam o comportamento, mas esquecem da pessoa. Quando uma criança repete um movimento, ou muda de uma estereotipia para outra, não é um retrocesso — é uma linguagem. É a forma que ela encontrou de se comunicar. E cabe a nós aprendermos essa língua”.
Sérgio Teodoro também alerta para o crescimento do número de diagnósticos. Segundo o CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos), uma em cada 31 crianças nasce dentro do espectro autista. “Há uma previsão de que, até 2035, cerca de 30% da população tenha algum nível de autismo. Precisamos nos preparar como sociedade para isso, na saúde, na educação, no trabalho, na convivência”.
“Deixamos nossas marcas no mundo não pelo que possuímos, mas sim pelo o que construímos em prol da humanidade”, finaliza Sérgio Teodoro.
A criação da Egrégora Servatus
Em 2021, no auge da pandemia, Sérgio Teodoro fundou a Egrégora Servatus, uma organização ecumênica e filantrópica que reúne ações de apoio social, psicológico e espiritual, no Bairro Campestre.
A instituição acolhe famílias em vulnerabilidade, crianças em situação de risco, mulheres vítimas de violência, idosos desamparados e, principalmente, pessoas autistas e seus familiares.
Durante os meses mais críticos da pandemia, a Egrégora distribuiu alimentos, promoveu encontros online e presenciais de apoio psicológico, e manteve viva a esperança em tempos de isolamento.
“Foi um período muito duro. As famílias com pessoas autistas sofreram duplamente: pela dificuldade do confinamento e pela ausência de políticas públicas. Então nós fomos aonde ninguém ia, até as casas, para levar acolhimento e escuta”, conta.
“Por questões burocráticas, a Egrégora não está atendendo presencialmente desde outubro de 2024. Mas, seguimos com a missão de acompanhar e orientar famílias ou responsáveis por pessoas autistas e colaborar com a sociedade piracicabana, inclusive participando de eventos sobre o tema e também do Dia de Doar”.
Neste ano, foi criado o primeiro Centro Acolhedor para pessoas autistas e PCDs dentro do Festival Junino de Piracicaba, o que garantiu a atenção e conforto para a família estar integrada as atividades sociais.
O Centro Vínculo Autista
O sonho amadurecido ao longo de décadas se concretizou em 2022, com a fundação do CVA – Centro Vínculo Autista, que hoje é referência na região. O centro reúne uma equipe de profissionais voltados ao estudo, diagnóstico e acompanhamento terapêutico de pessoas autistas e seus familiares. “O CVA nasceu da prática, da escuta e da experiência com as famílias. Ele não é um modelo importado ou uma reprodução de técnicas prontas. É um espaço de construção, que se adapta às realidades de cada pessoa”.
Sérgio Teodoro critica a padronização dos atendimentos e alerta para a falta de preparo dos profissionais. “O Brasil tem muita gente querendo criar centros de autismo, mas poucos dispostos a estudar profundamente o que é o autismo. Copiam modelos, repetem técnicas que não funcionam e chamam isso de inclusão. Mas não há inclusão verdadeira sem preparo e sem vínculo humano”.
Hoje o CVA tem mais de 400 famílias com pessoas autistas na lista de espera. “Almejamos, para breve, a criação do Centro de Equoterapia para pessoas autistas. Os animais já foram doados à Instituição e aguardamos trâmites para que, em 2026, tenhamos espaço físico necessário para a construção em local apropriado e legalizado para os atendimentos presenciais para as pessoas autistas e seus familiares”.
Cidadão Piracicabano
Em reconhecimento e sensibilização, no mês de abril de 2023, a Câmara Municipal de Piracicaba homenageou-o com o Título de Cidadão Piracicabano, em reconhecimento à sua colaboração e ao compromisso social com a cidade. Na mesma ocasião, a Egrégora Servatus também recebeu da Câmara Municipal de Piracicaba um Voto de Congratulações, pelos relevantes trabalhos altruístas realizados durante a pandemia. Ambas as homenagens foram propostas pelo vereador Zezinho Pereira.