Quando o preconceito é mais mortal que o vírus: por que ainda precisamos falar de sorofobia

Mesmo com avanços médicos e garantia de tratamento pelo SUS, o estigma contra pessoas vivendo com HIV ainda mata mais pela exclusão do que pela doença, exigindo informação, denúncia e acolhimento para romper a sorofobia.

Por mais que a medicina tenha avançado, que o acesso ao tratamento seja gratuito e universal e que a ciência repita incansavelmente que Indetectável = Intransmissível, a sorofobia ainda insiste em circular por aí como um vírus social silencioso, tóxico e longe de estar erradicado. O Brasil passou décadas construindo políticas públicas, campanhas e até um mês inteiro — o Dezembro Vermelho — para lembrar algo básico: viver com HIV não é crime, discriminar sim.

Entre dados, cartazes e fitinhas vermelhas, segue sendo urgente reforçar o óbvio: HIV não se transmite por abraço, beijo, talher compartilhado, suor ou convivência cotidiana. Mas, quando o preconceito fala mais alto, a ciência vira ruído e o medo se disfarça de moralismo. A prevenção combinada — PrEP, PEP, camisinha, testagem regular e tratamento antirretroviral — tornou o controle do vírus acessível e efetivo, mas não existe remédio capaz de curar o julgamento social.

O combate à sorofobia não vive só de campanhas institucionais. Ele depende de voz, de acolhimento e de grupos que transformam dor em rede de apoio, como os coletivos que oferecem escuta, informação e reforço psicológico para pessoas vivendo com HIV/AIDS. Cada conversa franca rompe um mito. Cada espaço seguro diminui o peso do estigma. Cada “você não está só” constrói um mundo em que o diagnóstico não define o destino.

E, quando a empatia não basta, a lei entra em cena. Negar emprego, expor a condição sorológica, segregar, humilhar: tudo isso é crime, passível de denúncia. Não se trata de sensibilidade, mas de direitos. O SUS garante tratamento gratuito e contínuo. A legislação garante proteção. A Constituição garante dignidade. E, ainda assim, não faltam relatos de portas fechadas, olhares tortos e currículos engavetados quando o HIV entra na conversa.

A sorofobia persiste porque a desinformação ainda encontra mais espaço que a educação. E enquanto uma parcela do país segue acreditando que o vírus está na pele, no toque, no copo, a exclusão continua fazendo mais estragos que a própria condição clínica — hoje controlável e, com adesão ao tratamento, indetectável e intransmissível.

Não é o vírus que isola. É o preconceito. Não é a carga viral que expulsa da mesa de jantar, da entrevista de emprego ou da roda de amigos. É o estigma. A ciência já cumpriu sua parte: deu resposta, tratamento e vida plena. Falta agora que a sociedade, finalmente, faça a sua.

 

Cena do premiado “Deus Tem Aids” que conta a história de pessoas que vivem com o HIV e a Sorofobia no Brasil – Foto: Divulgação/Deus Tem Aids

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