15 anos depois: o legado e o impacto do Dia do Evangélico no Brasil

Instituído por lei, o Dia do Evangélico marca reconhecimento oficial e inspira reflexão sobre identidade, missão e atuação cidadã das comunidades de fé

Pastor Toninho Guedes afirma que as igrejas têm papel essencial na luta contra desigualdades – Foto: Divulgação

 

Pastor Toninho Guedes destaca o trabalho das igrejas contra as desigualdades sociais

Celebrado em 30 de novembro, o Dia do Evangélico completa 15 anos desde que foi instituído pela Lei Federal 12.328/2010, sancionada pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Apesar de não figurar entre as datas mais difundidas do calendário nacional, o dia segue sendo considerado um marco importante para comunidades evangélicas em todo o país. Em Piracicaba, o Pastor Toninho Guedes, da Igreja Quadrangular, reflete sobre o significado da data, a visibilidade, os desafios e o papel das igrejas na sociedade contemporânea.

Para o pastor, o Dia do Evangélico é uma oportunidade de reforçar identidades de fé e renovar compromissos espirituais. “Em nossa comunidade buscamos, nesse dia, levar as pessoas a tomarem ciência e assumirem na íntegra o seu compromisso de cristão batizado”, afirma o religioso, lembrando que, em âmbito nacional, a responsabilidade aumenta: “É testemunhar o evangelho nas suas diversas estruturas: familiar, social e religiosa”.

Embora a lei federal represente um reconhecimento oficial, o pastor Toninho observa que a data ainda não é amplamente divulgada. “Não sei se podemos considerar como reconhecimento nacional, visto que é muito pouco propagado pelos meios de comunicação e poucos têm conhecimento dessa data. Mas já é uma conquista por parte dos parlamentares evangélicos”, avalia.

Segundo o pastor, o Dia do Evangélico também é um momento de visibilidade para um segmento religioso em ascensão. Ele destaca que as denominações evangélicas “estão tomando vulto” e lembra o avanço registrado recentemente: “Hoje somos 27% da população brasileira, de acordo com o Censo 2025”. Mesmo assim, Toninho ressalta que ainda há desafios internos. “Infelizmente ainda há divisão entre as igrejas no que se refere a doutrinas cristãs”.

Essa diversidade, porém, não precisa ser motivo de separação, afirma o pastor, que faz um apelo pela convivência harmoniosa entre todas as expressões de fé. “O Pai dos evangélicos e de outras denominações é o Pai de todos. Costumo dizer que fiquemos no que nos une: Deus; e não no que nos separa”.

O fortalecimento da identidade cristã é outro ponto ressaltado por Toninho Guedes. Ele acredita que as igrejas devem usar a data para reafirmar sua missão. “As igrejas evangélicas podem divulgar mais a sua identidade como verdadeiros batizados, comprometidos cada vez mais com a evangelização dos povos”. A isso se soma um papel social que, segundo ele, é indispensável. “Devemos estar cada vez mais comprometidos com a cidadania”.

Entre as ações realizadas pela comunidade que lidera, o pastor cita iniciativas sociais e de formação cidadã. “Estamos inseridos nos campos políticos , federal, estadual e municipal, e na igreja local com trabalhos voltados à infância e juventude, mulheres, homens, trabalhadores, nos âmbitos de conscientização e práticas missionárias”. Participar da sociedade, para ele, é também uma forma de evangelizar.

Toninho afirma que as igrejas têm papel essencial na luta contra desigualdades. “Devemos abraçar com sabedoria as causas da evangelização dos povos, procurando cumprir os ensinamentos bíblicos, a exemplo de Jesus”. Para ele, promover igualdade e solidariedade é um processo desafiador, porém indispensável. “É um trabalho árduo, mas não impossível”.

 

Estado laico, participação política e Frente Parlamentar Evangélica

A presença de evangélicos na política é um dos temas mais debatidos nos últimos anos. Embora o Brasil seja constitucionalmente um Estado laico, o pastor Toninho Guedes pondera que essa separação nem sempre é respeitada. Ele lembra que, apesar de ser conhecida como “bancada evangélica”, o nome oficial é Frente Parlamentar Evangélica (FPE), formada por parlamentares de diferentes denominações.

Sobre o impacto político da lei de 2010, ele considera que a criação da data também expressa força representativa. “Ser um marco importante não resta dúvida, pois temos uma grande bancada de evangélicos no Congresso Nacional. Os governos precisam dos evangélicos nas votações”.

Participar da vida pública, entretanto, não deve significar afastar-se do propósito espiritual. “A comunidade evangélica deve estar inserida na sociedade evangelizando e testemunhando a verdade pelas atitudes e ações de um verdadeiro cristão”, afirma.

Ao final da entrevista, o pastor deixa uma mensagem baseada no Evangelho de João 17:21: “Para que todos sejam um”. O pastor Toninho Guedes destaca a importância de união e coerência entre fé e prática: “Que sejamos um assim como Jesus nos orienta, para que o mundo creia”.

 

Pastora Damaris reforça a força da fé, o impacto social das igrejas e a pluralidade religiosa do Brasil

“Cada gesto de empatia anuncia o Evangelho. Esse é o nosso maior testemunho”, afirma Pastora – Foto: Divulgação

 

Em um país marcado pela diversidade religiosa e pela forte presença das igrejas nas periferias e pequenas comunidades, o Dia do Evangélico ganhou relevância nacional por reconhecer não apenas uma expressão espiritual, mas também o papel social desempenhado pelos evangélicos nas últimas décadas. Para a Pastora Damaris, da Igreja Quadrangular, a data representa “gratidão, memória, responsabilidade e testemunho vivo”.

“Celebrar publicamente a fé não é só um ato religioso, mas a reafirmação de valores que moldam vidas e fortalecem comunidades. É quando revisitamos nossa caminhada e lembramos o impacto transformador do Evangelho”, afirma.

Criada em 2010, a data representa, segundo ela, mais do que uma formalidade legislativa: é um reconhecimento ao crescimento dos evangélicos no país e às múltiplas frentes de atuação das igrejas. “Instituir a data foi um gesto de respeito à diversidade religiosa. O significado ultrapassa governos e ideologias”.

A pastora destaca que a oficialização amplia a visibilidade das denominações evangélicas, frequentemente lembradas apenas em períodos eleitorais, apesar do trabalho contínuo de acolhimento e assistência. “A sociedade vê a celebração, mas a maior parte do trabalho é silenciosa e diária”.

Nas últimas décadas, as igrejas se consolidaram como redes de apoio especialmente em áreas vulneráveis. “A igreja está onde surgem as necessidades. Ela acolhe, escuta, orienta e compartilha”, diz Damaris. Em sua comunidade, as ações incluem distribuição mensal de cestas básicas; visitas a hospitais, casas de repouso e famílias enlutadas; apoio material e emocional; programas de prevenção e recuperação de dependentes químicos; atividades infantis e juvenis; ações de inclusão e atendimentos individuais.

“Fé não é discurso, é prática. A transformação vem de voluntários que colocam o amor cristão em movimento”.

Para ela, o Dia do Evangélico também reforça a identidade coletiva. “Somos um povo de fé e serviço. A data nos lembra quem somos e nossa missão no mundo”. A celebração também estimula reflexão ética e social. “A fé precisa dialogar com a realidade e promover justiça”.

Damaris afirma que a data fortalece a convivência inter-religiosa. “Celebrar nossa fé também é afirmar respeito ao próximo. O Brasil é plural, e isso é uma riqueza”.

Sobre a crescente participação evangélica na esfera pública, ela defende equilíbrio e foco no bem comum. “O cristão pode atuar na vida pública, mas não pode se perder no poder”. Quanto às bancadas evangélicas, diz: “O Estado é laico, mas a sociedade não é. As bancadas representam segmentos da população”.

A laicidade, reforça, garante imparcialidade do Estado: “E isso beneficia todos”.

Aos 15 anos da data, Damaris deixa um recado aos fiéis e à sociedade: “Que sejamos luz e sal. Em tempos de polarização, o cristão é chamado a construir pontes”. Ela conclui lembrando que as igrejas devem seguir como espaços de acolhimento. “Cada gesto de empatia anuncia o Evangelho. Esse é o nosso maior testemunho”.

 

Pastor Rodolfo Capler fala sobre os desafios sociais e políticos dos evangélicos

Ele relembra as bases do movimento reformador e analisa como seus pilares ecoam nas comunidades evangélicas de hoje

Para Rodolfo Capler a bancada evangélica existe porque a origem está em uma doutrina pouco conhecida do grande público: a Teologia do Domínio, também chamada Dominacionismo – Foto: Divulgação

 

Em entrevista concedida a O Democrata, o pastor da Igreja Alternativa e teólogo, Rodolfo Capler, explicou, em detalhes, a formação do protestantismo, as diferenças entre igrejas históricas, pentecostais e neopentecostais, além de tecer críticas ao baixo nível de formação teológica em parte das denominações brasileiras. Capler também abordou temas sensíveis, como o envolvimento político de pastores, a teologia que sustenta a chamada “bancada evangélica”, a polêmica sobre doação de alimentos a moradores de rua e os desafios sociais e espirituais das igrejas no século XXI.

Para Capler, entender as diferenças atuais entre as igrejas evangélicas passa, necessariamente, pela história. Ele lembra que o marco inicial do protestantismo é 31 de outubro de 1517, quando Martinho Lutero publica as 95 teses na Alemanha. “A gente fala ‘a’ Reforma, mas foram várias reformas. Começa na Alemanha e se espalha pela França, Inglaterra, Suíça, Holanda e boa parte do norte da Europa”, explica.

Essas reformas deram origem ao chamado protestantismo histórico, composto por denominações que surgiram entre os séculos XVI e XVIII, são elas: Luteranos (século XVI); Presbiterianos, com John Knox (século XVI); Congregacionais (século XVI); Batistas, surgidos na Holanda (século XVII); Anglicanos, originários do rompimento do rei Henrique VIII com Roma e Metodistas, no século XVIII, com John Wesley.

“Esse é o cinturão do protestantismo histórico. São igrejas que nasceram ainda muito próximas ao catolicismo e carregam forte tradição de estudo teológico”, afirma o pastor.

Para muitos pesquisados, em 1901, nos Estados Unidos, durante as reuniões do Bethel Bible School, lideradas por Charles Fox Parham surge o movimento pentecostal, marcado por ênfase em dons espirituais, experiências de êxtase, orações emotivas e a crença no batismo no Espírito Santo. Em 1906 entra com força a William Seymour, jovem negro, filho de ex-escravizados, protagonista do Avivamento da Rua Azusa, em Los Angeles.

“Dali explode o movimento pentecostal para o mundo inteiro, inclusive influenciando o movimento carismático dentro da Igreja Católica”, explica. O pentecostalismo chega ao Brasil em 1910,  Congregação Cristã, seguida da Assembleia de Deus, em 1911.

Na metade do século XX, surgem as denominações neopentecostais, como Universal do Reino de Deus (1977) e Internacional da Graça (1977). Além delas, multiplicam-se no Brasil as chamadas igrejas independentes, abertas por pastores sem vínculo denominacional. “É a ‘Igreja do Fogo’, a ‘Igreja da Chuva’. O pastor abre porque diz que Deus mandou, sem tradição teológica ou doutrinária por trás”, ironiza.

Hoje, afirma Capler, a maioria dos evangélicos brasileiros pertence a denominações pentecostais, neopentecostais ou independentes.

O pastor explica que isso não ocorre nas igrejas históricas, onde a ordenação depende de anos de estudo formal. Nas igrejas pentecostais e neopentecostais, no entanto, a função costuma ser automática. “Nessas igrejas, é comum que a esposa do pastor seja chamada de pastora, independentemente de estudo. Nas históricas, não. Ela só é pastora se fizer teologia e passar pela ordenação”, detalha.

 

A crítica central: “A distância entre o preparo teológico é abissal”

Rodolfo Capler enfatiza que o protestantismo histórico herdou dos reformadores, quase todos ex-clérigos católicos, o compromisso com estudo teológico, línguas originais da Bíblia e filosofia.

“Pastores históricos estudam quatro anos de teologia, aprendem grego, hebraico, hermenêutica, exegese, filosofia. Já um pastor pentecostal pode ser ordenado em seis meses. Se em quatro anos já é difícil se preparar, imagine em seis meses”.

Segundo ele, essa formação deficitária explica por que muitos pastores cometem erros doutrinários e pastorais; há despreparo para lidar com sofrimento humano; surgem escândalos financeiros, sexuais e políticos e líderes religiosos desconhecem a própria história do protestantismo.

“A maioria dos grandes escândalos no Brasil vem de pastores pentecostais. Não todos, claro. Mas a maioria. É consequência direta da falta de estudo e formação séria”.

Questionado sobre porque existe bancada evangélica em um Estado laico, o pastor é categórico: a origem está em uma doutrina pouco conhecida do grande público: a Teologia do Domínio, também chamada Dominacionismo.

A teoria defende que cristãos devem ocupar sete esferas de influência social, são elas governo, educação, ciência e tecnologia, artes, família, religião e mídia, para “restaurar” a sociedade ao Reino de Deus. “Isso é uma heresia teológica. Mas moldou profundamente o pensamento dos pastores pentecostais brasileiros. Foi difundida nos anos 1990, virou livro do Edir Macedo, ‘Plano de Poder’, e se alastrou”.

Segundo Capler, foi essa lógica que inspirou o discurso político recente. “A narrativa de Bolsonaro de ‘luta do bem contra o mal’ vem diretamente da Teologia do Domínio. Não foi ele que inventou, mas foi assessorado por pastores como Malafaia, que conhecem essa doutrina. É uma estratégia”.

Ele reforça a crítica. “Os pentecostais ignoram que os reformadores foram exatamente os responsáveis pelo conceito de Estado laico. Martinho Lutero já dizia: igreja e Estado não devem interferir um no outro”.

Rodolfo Capler também comentou a polêmica envolvendo ações sociais de igrejas, como distribuição de alimentos a moradores de rua. Sem negar a necessidade da ação, ele critica o modo como muitas igrejas realizam o trabalho, com falta de preparo psicológico e social; ausência de diálogo com políticas públicas; ações que expõem pessoas em vulnerabilidade e assistencialismo como ferramenta de proselitismo.

“Se a igreja não estuda teologia, imagine se estuda políticas sociais, psicologia, serviço social. Aí surgem ações mal planejadas, que podem até causar dano”.

Para ele, o desafio das igrejas evangélicas é duplo, ou seja, espiritual e sociológico. “A igreja tem que cuidar de almas, sim, mas também precisa compreender a realidade à sua volta. Do contrário, vira ativismo vazio. E isso vale para doação de alimentos, acolhimento ou atuação política”.

Ao final, Rodolfo Capler reconhece a complexidade do cenário evangélico no Brasil, diverso, fragmentado e em disputa interna entre tradição teológica e práticas mais recentes.

“É muita informação, é muito complexo. Mas, se as igrejas quiserem contribuir de verdade com a sociedade, precisam voltar a estudar, entender sua história e assumir responsabilidade ética. Sem isso, o movimento evangélico continuará dividido, vulnerável e facilmente manipulado”.

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