“A fotografia é o que me mantém de pé”: 30 anos de história, amor e luz no olhar de Fabrice Desmonts

Entre luzes e sombras, Fabrice segue transformando cada clique em memória viva, porque fotografar é mais do que um ofício: é existir

“O que me dá força é poder fotografar. Isso é a essência da minha vida”, diz Fabrice emocionado – Fotos: Arquivo Pessoal

 

No dia 28 de outubro comemora-se o Dia do Funcionário Público. O Democrata traz a história de um guerreiro, que tem em sua trajetória profissional a história de Piracicaba. Ele é Fabrice Desmonts, fotógrafo da Câmara de Vereadores de Piracicaba há três décadas. De artefinalista em um jornal local a repórter fotográfico reconhecido, Fabrice construiu uma vida dedicada a registrar, com sensibilidade e compromisso, os rostos, os gestos e os momentos que moldaram a vida política e social de Piracicaba.

Mesmo enfrentando desafios pessoais marcados por uma doença rara e progressiva, ele nunca deixou de enxergar o mundo por meio das lentes. Sua jornada é feita de superação, amor pelo serviço público e pela fotografia — arte que, como ele mesmo diz, é o que o mantém de pé, em todos os sentidos.

 

Como a fotografia entrou na sua vida?

Arrumei meu primeiro emprego como arte-finalista no jornal O Diário de Piracicaba, em 1988. Trabalhava com o Antônio Marcos e o Marco Moratori. Para fazer as artes que iam para o jornal, eu precisava subir até o laboratório fotográfico e fazer contato. Pegava o papel fotográfico, colocava o logotipo da empresa e montava a arte final do anúncio.

A cada dia que eu subia, fazia mais amizade com os fotógrafos, observava o trabalho deles e comecei a me apaixonar por aquilo. Foi nessa época que meu pai faleceu, e nós herdamos uma casa em Ilhabela. Ela foi vendida e o dinheiro dividido entre os filhos. Com a minha parte decidi investir no meu sonho.

Fui para São Paulo e comprei um equipamento fotográfico completo. Com o restante, viajei. Estava de férias e decidi que, quando voltasse, pediria uma oportunidade no jornal. E foi o que aconteceu. Quando voltei, o Cecílio Elias Netto já estava no comando do jornal. Fui até ele e perguntei se poderia trabalhar como fotógrafo nas horas vagas, quando não estivesse no departamento de arte-final.

Pouco tempo depois, me chamaram e disseram que tinham uma boa e uma má notícia. Pedi para começarem pela ruim. “Você está despedido das funções de arte-finalista”, me disseram. Na hora, perdi o chão. Então perguntei qual era a boa. “Você está sendo contratado como repórter fotográfico.” Foi assim que tudo começou. Passei a trabalhar com Davi Negri, Diógenes Banzato e Haroldo Vitor, formando uma equipe de repórteres fotográficos que produzia as fotos para O Diário e para A Província.

 

São 30 anos de dedicação ao serviço público. Como você resume essa trajetória?

Me emociono só de pensar. Trinta anos… é a minha vida. A Câmara é a minha vida. Tive sorte. Eu estava trabalhando como prestador de serviço na Prefeitura quando um colega me avisou: “Vai ter concurso público na Câmara, por que você não participa?” A princípio, achei que não seria necessário, mas fui convencido pela minha namorada da época a tentar. Fiz a inscrição, participei e acabei sendo aprovado. Era a realização de um sonho. Eu amava fotografia e iria trabalhar ao lado do fotógrafo Davi Negri, que me ensinou muito da profissão, assim como o Banzato lá no O Diário. Passei a ser funcionário público concursado. Desde então, são 30 anos de dedicação total. Trabalhei sábados, domingos, feriados, Natais e Anos-Novos. Lembro que nem fui à minha colação de grau, mesmo tendo pago os quatro anos de faculdade, porque estava fotografando uma reunião na Câmara. Para mim, aquilo era mais importante. A Câmara é, sem exagero, a minha vida.

 

O que mais te orgulha ao olhar para essas três décadas registrando a história da Câmara e da cidade?

Para mim, é um orgulho ser funcionário público e ter participado dessa história. É algo que, daqui a alguns anos, quando eu me for, o meu trabalho ficará. A história do meu trabalho permanecerá. São 30 anos de amor pelo que faço. Perdi uma perna e, três meses depois, já estava de cadeira de rodas fotografando. Um mês e meio depois, com a primeira prótese, já estava em pé, fotografando novamente. E é assim para mim. Eu amo o que faço, amo o meu trabalho e amo meus companheiros de jornada.

 

Quais momentos mais marcaram sua carreira dentro da Câmara de Vereadores?

Acho que todo o nosso trabalho, o meu e o do Davi Negri, em relação ao rio Piracicaba, que depois acabou inspirando o nosso livro sobre os pássaros que vivem no rio, dentro da cidade de Piracicaba. Foi o monitoramento do rio Piracicaba, que durou uns 15, 16 anos. Descíamos o rio várias vezes por ano, com o vereador Zé Pedro e o vereador Longato, tanto o rio Piracicaba quanto o rio Corumbataí. Conhecmeos a nascente do rio Corumbataí. Seguimos a nascente até o primeiro riacho em que era possível colocar um barco. Colocávamos o barco e fazíamos a descida.

Era um trabalho maravilhoso, porque fotografamos trecho por trecho. No ano seguinte fazíamos o mesmo trajeto, e assim sucessivamente. Isso fez com que pudéssemos registrar o que acontecia com o meio ambiente nesse tempo. Isso, para mim, foi algo que marcou muito.

Através desse trabalho, foi possível processar a cidade de Rio Claro por não tratar o lixo, foi possível processar empresas que jogavam detritos no rio Piracicaba, e também promover o reflorestamento de locais que haviam sido desmatados.

Muitos estagiários que passaram na Câmara também marcam minha trajetória. Alguns chegavam com muita vontade de aprender. Vários se tornaram grandes profissionais. Por exemplo, o Felipe Perim, que hoje tem uma das melhores produtoras de vídeo; entre outros. Então, quando penso nos momentos mais marcantes, lembro do trabalho com o rio, mas também dessa contribuição com os estagiários que se tornaram profissionais. Isso me dá muito orgulho.

 

O que mais te inspira a continuar exercendo seu trabalho com tanta dedicação e cuidado?

Estar vivo me inspira. Perdi uma perna, estou perdendo a outra, e talvez perca o braço. Mas o que me dá força é poder fotografar. Isso é a essência da minha vida. Sempre digo no meu departamento o quanto é importante para mim estar lá, o quanto é essencial poder fotografar, tratar imagens, fazer parte do dia a dia. Jamais pediria aposentadoria por invalidez. Mesmo que um dia eu não consiga mais fotografar, vou continuar. Ensinando estagiários, organizando o arquivo, assessorando projetos. A Câmara é minha vida. Tudo o que sou, tudo o que conquistei, devo ao meu trabalho. Fotografar é o que me mantém de pé, em todos os sentidos.

 

Como é ver a evolução tecnológica da fotografia e adaptar-se às novas ferramentas sem perder a essência do registro humano?

Foi um desafio grande. Eu venho da geração do filme. Rebobinava rolo, revelava negativo, ampliava foto no laboratório.  De repente, apareceu o digital. Apertava-se um botão e descarregava no computador. Eu nem sabia mexer em computador! Precisei reaprender tudo. A fotografia digital, no começo, era limitada. Hoje, os equipamentos são incríveis. A sensibilidade das câmeras permite fotografar à noite, sem flash, com qualidade impressionante. A inteligência artificial também mudou o processo de edição. Mas o mais importante é o olhar. A máquina registra, o fotógrafo sente.

Os estagiários foram fundamentais nesse aprendizado. Eles traziam novidades das faculdades, e a troca era constante. Nunca tive vergonha de perguntar, de aprender.

Eu acompanhei a tecnologia e, ao mesmo tempo, ainda sou analógico. Tenho na alma um pouco o que chamo de arte da fotografia. Fotografo no modo manual, regulo velocidade, abertura, luz, como fazia em 1989. A tecnologia me acompanha, mas a essência permanece: a fotografia é arte, paciência e emoção.

 

Trabalhar no Legislativo é, de certa forma, acompanhar a história de Piracicaba sendo escrita. Como é participar disso através das imagens?

É uma sensação indescritível. A fotografia no serviço público tem um papel essencial, registrar a história. Um povo sem memória não tem identidade. E a fotografia é a memória viva. Ela guarda as expressões, as emoções, as mudanças. Quando revejo arquivos antigos, vejo ali o início de muitas coisas importantes da cidade. Cada imagem traz um pedaço da história e das pessoas que a construíram. A fotografia, assim como o vídeo, é um instrumento fundamental para documentar e preservar o que somos. É um trabalho silencioso, mas essencial para que o futuro saiba quem fomos.

 

Que mensagem você deixaria para os novos servidores que estão começando agora?

Diria que se dediquem e façam o trabalho com amor. Quando você entra no serviço público, muitas vezes não percebe que vai passar a vida inteira ali. Com o tempo, entende que está construindo algo duradouro, como amizades, reputação, história. O ambiente de trabalho é uma família. O respeito é fundamental. Costumo dizer aos novatos: não custa dar “bom dia”, “boa tarde”, “boa noite”. São gestos simples que tornam o convívio melhor. Nem sempre o reconhecimento vem da administração, mas ele vem dos colegas, das pessoas que utilizam o serviço, da história que fica registrada. O funcionário público é a alma da administração. Se ele for valorizado, todo o trabalho funciona melhor. Então, a mensagem é essa: faça o seu melhor, porque o que você constrói no serviço público fica para a história.

 

O que significa para você comemorar 30 anos de serviço público?

Trinta anos passam muito rápido, e quando você olha para trás e vê tudo o que construiu, percebe que valeu a pena. Eu costumo dizer que tive o privilégio de viver a história de Piracicaba de perto, de registrar momentos importantes e conhecer pessoas incríveis.

Comemorar 30 anos de serviço público é um reconhecimento, não só do tempo, mas da dedicação, do comprometimento e do amor pelo que se faz. Eu sempre procurei exercer meu trabalho com respeito, responsabilidade e sensibilidade, porque acredito que o servidor público tem um papel fundamental na vida da cidade.

A gente ajuda a construir a memória coletiva, contribui para que as pessoas conheçam o que é feito dentro da Câmara e se sintam parte desse processo. E isso me deixa muito feliz. É um orgulho enorme olhar para trás e saber que, de alguma forma, ajudei a contar essa história.

 

Você enfrenta um desafio pessoal com a descoberta da síndrome de Buerger há aproximadamente 15 anos. Como impactou sua vida e sua forma de enxergar o trabalho?

É uma síndrome, como outras, que não tem cura. É um processo inflamatório que tampa as veias e artérias, vai fazendo com que as extremidades morram. Então, primeiro eu perdi um dedo do pé esquerdo, depois eu perdi o pé direito, a perna direita, depois eu perdi o dedo da mão esquerda, agora eu estou perdendo a perna esquerda e já foi dito que eu vou perder o braço esquerdo. O braço direito meu é o único que tecnicamente vai ser a minha vida. Então é assim, como foi uma doença que eu descobri há 15 anos atrás e todos os dias eu escutava o que ia acontecer comigo, eu trabalhei isso na minha cabeça. Não é fácil, não é. Mas eu procuro viver e, como eu disse, eu tinha que arrumar um foco para fazer a minha vida viver, e é a fotografia. Eu acordo e penso o que eu vou fotografar ou que foto que vou tratar. Nas conversas com os amigos de trabalho. E é isso, eu tenho uma doença que eu não posso fazer nada para curar, mas eu posso fazer alguma coisa para fazer com que o último dia de vida ou de último dia de trabalho seja positivo e que fique para a história e que valha a pena.  Meu sonho é me aposentar com 60 anos de idade, logo. A aposentadoria não vai ser aquilo que a vida inteira eu sonhei, mas pelo menos eu vou olhar para trás e ver que o meu trabalho foi tudo aquilo que eu sempre quis que fosse.

 

Fabrice Desmonts, Bolly Vieira e Justino Lucente

 

Fabrice e o amigo e fotógrafo Davi Negri, na exposição Janela do Tempo, organizada pelos profissionais na Câmara de Vereadores de Piracicaba, em 31 de julho de 2017

 

Movimento Salvem Nossos Rios em 16 de fevereiro de 2007

 

Funcionários da Câmara em 1995

 

Funcionários da Câmara em 2012

 

Quando e onde tudo começou, no Diário de Piracicaba em 1990, com o saudoso Diógenes Banzatto.

 

“A história do meu trabalho permanecerá. São 30 anos de amor pelo que faço”, afirma Fabrice

 

Em 27 de setembro de 2009, Fabrice recebe homenagem das mãos dos diretores do Sindicato dos Municipais de Piracicaba, José Valdir Sgrigneiro e José Osmir Bertazzoni

 

Equipe de Comunicação da Câmara de Vereadores na cobertura das eleições municipais de 2024

 

Fabrice e Erick Vicente na cobertura das eleições municipais de 2024

 

Fotos artísticas de Fabrice Desmonts

Menino do Caixão

 

Macaquinho

 

Seca do Rio Piracicaba em 2017

 

Cheia do Rio Piracicaba em 31 de janeiro de 2010

 

Borboleta na cabeça do então secretário municipal João Chaddad

 

Torres da Catedral de Piracicaba refletidas na poça d´água

 

Ibitiruna

 

Festival de Dança – 27 de abril de 2008

 

Casa do Povoador

 

Expedição pelo Rioi Piracicaba em 16 de maio de 2007

 

Inicio da ocupação no Cantagalo, em 2007

 

Festa do Divini Espírito Santo

 

Tempestade no Centro de Piracicaba em 29 de março de 2006

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