Dr. Nivaldo Lavoura Júnior, médico urologista, fala sobre diagnóstico precoce, quebra de tabus e da formação de hábitos saudáveis desde a infância, que fazem a diferença na saúde do homem

Em um país onde a desinformação ainda é uma das maiores inimigas da saúde, o movimento Novembro Azul surge a cada ano com um alerta essencial como a prevenção sendo o caminho mais eficaz para salvar vidas. O câncer de próstata é o segundo tipo de câncer mais comum entre os homens no Brasil, atrás apenas do de pele não melanoma.
Estima-se que um em cada nove homens será diagnosticado com a doença ao longo da vida. Para o médicoNivaldo da Silva Lavoura Júnior, especialista em urologia, o maior desafio não é apenas o diagnóstico precoce, mas também romper preconceitos e incentivar hábitos saudáveis desde cedo, garantindo uma vida adulta com mais qualidade. Em entrevista ao Jornal O Democrata, ele detalha os principais fatores de risco, a importância dos exames preventivos e a influência do estilo de vida na saúde masculina.
“O câncer de próstata é um tumor maligno que acomete uma glândula exclusiva do homem, localizada logo abaixo da bexiga”, explica o urologista. “A função da próstata é produzir o sêmen, secreção que nutre e transporta os espermatozoides”.
Assim como qualquer órgão, a próstata pode ser sede de tumores malignos. Entre os principais fatores de risco, Lavoura destaca idade, hereditariedade e etnia. “À medida que o homem envelhece, aumenta a probabilidade de desenvolver o câncer. Além disso, há predisposição genética, casos em familiares de primeiro grau elevam o risco, e a doença costuma ser mais frequente e agressiva entre homens negros”.
Segundo o médico, o momento certo para iniciar a prevenção varia de acordo com o perfil do paciente. “Os homens negros e aqueles com histórico familiar devem começar os exames a partir dos 40 anos. Já os demais, sem fatores de risco, podem iniciar aos 45 anos”, orienta.
Os principais exames são o PSA, um exame de sangue que mede a dosagem de uma proteína produzida pela próstata, e o toque retal, que permite ao médico avaliar o tamanho e a consistência da glândula.
Sintomas e o perigo do silêncio
Um dos grandes problemas do câncer de próstata é o fato de ser silencioso em sua fase inicial. “No começo, ele não provoca sintomas, pois o tumor ainda é pequeno e não causa obstrução urinária”, afirma Lavoura. “Quando surgem sinais como dificuldade para urinar, jato fraco, vontade frequente de ir ao banheiro ou até sangue na urina, o câncer já está em estágio mais avançado”.
Por isso, reforça o médico, esperar o aparecimento de sintomas pode ser fatal. O diagnóstico precoce não só aumenta as chances de cura, como também permite tratamentos menos invasivos. “Quando descoberto cedo, o câncer de próstata tem até 90% de chance de cura”, ressalta.
Durante décadas, o exame de toque retal foi cercado de preconceitos e resistência. Lavoura reconhece que o cenário está mudando. “Há 10 ou 15 anos, muitos homens se recusavam a fazer o exame, seja por constrangimento, por razões culturais ou religiosas. Mas com o aumento da informação e o entendimento da importância do diagnóstico precoce, essa resistência vem diminuindo significativamente”, explica.
Hoje, o médico observa um comportamento mais consciente. “A sociedade entendeu que o toque retal é um procedimento rápido, indolor e essencial para detectar tumores que o PSA sozinho pode não identificar. A vergonha não pode ser maior que o amor à vida”.
Entre as dúvidas mais comuns levadas ao consultório está o aumento natural da próstata com o envelhecimento. “A partir dos 30 anos, a próstata tende a crescer gradualmente. Isso é um processo natural, conhecido como hipertrofia prostática benigna, e não significa câncer”, esclarece.
Muitos pacientes confundem esse crescimento com sinais de doença grave. “É comum recebermos exames de imagem mostrando próstata aumentada. O homem se assusta, mas esse aumento é parte do envelhecimento e não está ligado, necessariamente, a um tumor”.
Outros sintomas, como jato urinário fraco e aumento da frequência para urinar, também podem estar relacionados à hiperplasia benigna, e não ao câncer.
Lavoura explica ainda que o PSA elevado nem sempre indica malignidade. “O PSA pode subir por diferentes motivos, como inflamação (prostatite) ou pelo tamanho aumentado da glândula. Nem todo aumento significa câncer, e isso gera muita ansiedade nos pacientes”.
O médico lembra que os hábitos alimentares e o estilo de vida têm grande influência na saúde da próstata. Ele cita um estudo marcante de 1997, conduzido por um pesquisador japonês radicado nos Estados Unidos, que comparou o índice de câncer entre imigrantes japoneses e nativos que mantiveram hábitos alimentares tradicionais.
“O grupo que se adaptou à dieta ocidental, rica em carnes, frituras e carboidratos, apresentou incidência muito maior de câncer de próstata. Já os que continuaram com a alimentação japonesa, rica em peixes, verduras e baixa gordura, mantiveram índices muito baixos”, detalha.
Esse e outros estudos apontam que dietas equilibradas, com consumo de frutas, legumes, verduras e pouca gordura saturada, ajudam a proteger a próstata. “O sedentarismo e a obesidade abdominal são grandes vilões. Já a atividade física aeróbica regular tem efeito protetor comprovado”, reforça o médico.
Lavoura também lembra o exemplo dos países mediterrâneos. “Homens que seguem a dieta mediterrânea, com azeite, peixes e grãos integrais, têm menor incidência de câncer de próstata. Alimentar-se bem e se exercitar é investir na própria saúde”.
Educação e prevenção desde a infância
A prevenção, segundo o especialista, deve começar ainda na infância. “Os pais têm papel fundamental na formação de hábitos saudáveis. Devem incentivar uma alimentação rica em verduras, legumes e frutas, evitar ultraprocessados e estimular a prática de esportes”.
O médico alerta para o crescimento da obesidade infantil, cada vez mais associada ao sedentarismo e ao uso excessivo de telas. “Hoje, as atividades lúdicas se concentram nos jogos eletrônicos. É essencial equilibrar o tempo de tela com atividades físicas e alimentação equilibrada. Esses hábitos, quando formados cedo, se refletem em uma vida adulta mais saudável”.
Mesmo na infância, existem cuidados importantes com o sistema urinário e reprodutivo. Lavoura destaca o papel fundamental da hidratação adequada. “A água é essencial para o bom funcionamento do organismo e ajuda a prevenir cálculos renais e infecções urinárias. Crianças e adolescentes devem consumir cerca de 30 ml de água por quilo de peso corporal ao dia”.
Ele também orienta que as crianças aprendam desde cedo a não segurar a urina por muito tempo e a evitar o consumo excessivo de sal, que pode sobrecarregar os rins. “Na adolescência, é importante introduzir a educação sexual, abordando prevenção de doenças sexualmente transmissíveis e o respeito ao próprio corpo”.
O acompanhamento médico regular é indispensável para detectar precocemente qualquer alteração. “A visita ao pediatra ou ao pediatra especializado em adolescência é essencial para garantir o desenvolvimento físico e mental equilibrado”, destaca.
Quando surgirem sintomas urinários ou dúvidas relacionadas à sexualidade, o adolescente pode ser encaminhado a um urologista, que dará as orientações adequadas. “Essa transição entre a infância e a vida adulta é um momento de descobertas e de formação de consciência sobre o próprio corpo. A orientação médica é uma aliada poderosa para a saúde futura”, afirma Lavoura.
O médico reforça que o Novembro Azul não deve se limitar a um mês de campanhas, mas sim se transformar em um estilo de vida voltado à prevenção.
“Cuidar da próstata é cuidar da saúde como um todo. Alimentação equilibrada, atividade física, hidratação e exames regulares formam o conjunto mais eficaz de proteção”, resume.
O urologista conclui com um apelo à consciência masculina. “O preconceito já custou muitas vidas. Hoje temos informação, acesso e tratamento. O homem que se cuida vive mais, e vive melhor”, fala. “Novembro Azul” é um convite à mudança de atitude. Porque prevenir é sempre o melhor tratamento”, conclui.
Autocuidado masculino começa na infância
Psicanalista orienta sobre a importância de ensinar os meninos a cuidar de si desde cedo
A ideia de que “homem não chora” ou que “precisa aguentar firme” ainda está presente na criação de muitos meninos e pode ter reflexos diretos na forma como eles cuidam (ou deixam de cuidar) da própria saúde na vida adulta. A psicanalista Viviane Rosadas alerta que o autocuidado masculino começa na infância e que a maneira como os meninos aprendem a lidar com o corpo e as emoções influencia o comportamento deles ao longo da vida.
Segundo ela, o ambiente familiar é o primeiro espaço onde o menino forma referências sobre o cuidado. “Se ele vivência figuras cuidadoras como estáveis, acolhedoras e disponíveis, tende a internalizar um objeto bom, que o ajuda a cuidar de si. Mas se cresce num ambiente onde o cuidado é negado ou ridicularizado, pode desenvolver um objeto interno punitivo, levando-o a ignorar o corpo e as próprias necessidades”, explica Viviane.
Alguns comportamentos na infância já indicam dificuldades futuras em lidar com o autocuidado. “Quando o menino não pede ajuda, rejeita consolo ou tenta aguentar tudo sozinho, é sinal de que ele não está conseguindo integrar cuidado e força. Esse padrão pode acompanhá-lo na vida adulta, levando à negligência com a própria saúde”, observa a psicanalista.
Viviane ressalta que os adultos têm papel fundamental para mostrar que cuidar-se também é coisa de homem. “Quando o adulto nomeia emoções, acolhe sentimentos e não ridiculariza o choro, o menino entende que o cuidado não é fraqueza, mas sustentação. Permitir que ele fale da tristeza, da raiva ou da dor é o que o ajuda a crescer mais inteiro, sem precisar esconder quem é.”
Além da família, a escola é um espaço importante na formação emocional. “É um dos primeiros ambientes onde a criança transfere e reelabora suas relações internas. Se ali encontra acolhimento e diálogo, ela pode reorganizar experiências dolorosas e construir uma relação mais saudável consigo mesma e com os outros”, pontua.
A psicanalista orienta que, na adolescência, o cuidado também deve incluir a saúde sexual e emocional. “Os pais devem observar se o jovem mantém relações respeitosas, se fala sobre sentimentos e se vive o desejo de forma curiosa e não destrutiva. O diálogo aberto é essencial para que o adolescente elabore fantasias e ansiedades típicas dessa fase”, diz.
