No nosso país ainda hoje existem vários assuntos polêmicos, poucos causam mais comoção como o assunto drogas, muitos veem todo tipo de substância entorpecente como nocivas e colocam em um mesmo balaio as que são muito nocivas com outras com efeitos mais brandos, porém uma coisa é praticamente uma unanimidade, todos que tem uma opinião sobre este assunto o fazem na maioria das vezes tomando sua cervejinha ou comendo seu chocolate.
Neste contexto falo um pouco mais sobre a maconha e trago alguns fatos pouco conhecidos sobre tal erva. Claramente não é um tema fácil de falar, por se tratar de um tema carregado de ideologia, logo um convite ao debate facilmente pode ser confundido com apologia, como não estou nem um pouco disposto a fazer um tour por nenhuma penitenciaria brasileira, deixo claro o intuito informativo deste artigo.
Apesar da maconha ser um assunto nebuloso, a verdade é que se sabe muito sobre o assunto, sabe-se que ela é cultivada a milênios e inúmeras pesquisas foram realizadas na história.
A má fama começou em 1937, nos Estados Unidos, logo após a proibição de bebidas alcoólicas em 1920, a famosa “Lei seca”, que durou até 1933. De acordo com um texto publicado por um funcionário do governo americano na mesma época, chamado Harry Anslinger, o fato de uma jovem ter se jogado do quinto andar de um prédio em Chicago foi atribuído ao uso da maconha, alegando que não foi suicídio, mas sim um assassinato, segundo o mesmo a maconha, uma novidade nos Estados Unidos na época, foi quem assassinou a garota, segue um pedaço do texto original: “O corpo esmagado da menina jazia espalhado na calçada um dia depois de mergulhar do quinto andar de um prédio de apartamentos em Chicago. Todos disseram que ela tinha se suicidado, mas, na verdade, foi homicídio. O assassino foi um narcótico conhecido na América como marijuana e na história como haxixe. Usado na forma de cigarros, ele é uma novidade nos Estados Unidos e é tão perigoso quanto uma cascavel.”
A maconha já possuía uma certa reprovação do povo americano por ser frequentemente associada com mexicanos, já existiam estereótipos relacionados ao assunto, até mesmo foi dito que a maconha induzia a promiscuidade , que dava uma força sobre-humana para os mexicanos, o que eles viam como uma vantagem injusta na disputa por empregos cada vez mais escassos com a queda da bolsa de 1929, porém essa publicação foi a gota d’água por lá, e baseado nesses boatos e em vários outros a maconha foi finalmente proibida nos Estados Unidos.
No Brasil histórico, a erva era usada nos terreiros de Candomblé para ajudar na incorporação das entidades, ela foi trazida pelos escravos no século XVI, o nome maconha vem do idioma quimbundo de Angola, na época era conhecida como “diamba” ou fumo de Angola, também era usada por agricultores nos rincões brasileiros após longos dias de trabalho braçal. Já na Europa era vinculada a imigrantes árabes e indianos, mas igualmente marginalizada.
O que pouca gente sabe é que além de fumo para as classes marginalizadas muitos remédios na época eram feitos da cannabis, desde xaropes pra tosse a pílulas para dormir. Quase 100% da produção de papel continha fibra de cânhamo retirada do caule da planta. O tecido de cânhamo era muito difundido por ser muito resistente, similar ao jeans na consistência, por isso era usada para a confecção de cordas, redes de pesca e até velas de barcos, pra quem não sabe o Brasil foi descoberto por Pedro Alvares Cabral no dia 22 de Abril de 1500 e desembarcou em Porto seguro na Bahia de uma caravela com as velas feitas de cânhamo.
Faz mal?
Mas a pergunta que não quer calar: a maconha faz mal? Ao longo da história várias pesquisas foram feitas, a primeira conhecida foi feita em 1894, quando a Índia era uma colônia britânica, os ingleses desconfiaram que o “bhang”, bebida comum na Índia feita a base de maconha, causava demência, a princípio religiosos britânicos pediram a sua proibição, por consequência formou-se então uma comissão composta por indianos que analisou o assunto por dois anos e o relatório final apresentou um parecer favorável a erva: “O bhang é quase sempre inofensivo quando usado com moderação e, em alguns casos é benéfico. O abuso do bhang é menos prejudicial que o abuso do álcool.”
No ano de 1944 o prefeito de Nova York Fiorello La Guardia encomendou uma pesquisa sobre o uso da maconha e os seus reais riscos para a saúde e concluíram que: “O uso prolongado da droga não leva à degeneração física, mental ou moral”, porém o trabalho passou despercebido dada a grande repercussão que Anslinger causou com sua publicação sobre a morte da menina.
A partir dos anos 60 várias pesquisas no mesmo formato foram encomendadas em alguns países de primeiro mundo, mas nenhuma teve força o suficiente para uma mudança de visão geral.
Pesquisas mais recentes não acharam nenhum correlação entre o câncer de traquéia, pulmão ou boca com o uso da maconha através do fumo , o que não quer dizer que não haja, a ciência evolui todos os dias e pesquisas são concluídas periodicamente, o que torna difícil ter respostas concretas, de um modo geral o cigarro de maconha é similar ao cigarro normal, porém muitas vezes o de maconha é consumido sem filtro e sem um controle sanitário por parte dos traficantes, o que pode ser pior para o usuário.
Dependência
Quanto a dependência, algo entre 6% e 12% dos usuários que responderam as pesquisas desenvolveram um uso compulsivo da maconha, menos da metade da taxa de usuários compulsivos nos casos do álcool e tabaco. Segundo Dartiu Xavier, coordenador do programa de orientação e atendimento a dependentes da Escola Paulista de Medicina, existe um perfil para esses usuários compulsivos, em geral são jovens, ansiosos e em alguns casos depressivos, segundo Dartiu “Dependência de maconha não é problema da substância, mas da pessoa”, ele explica que pessoas que se encaixam neste perfil estão propensas a todos os tipos de vício, como jogo, internet e sexo.
Dados da ONU indicam que 147 milhões de pessoas espalhadas pelo mundo usam a maconha, o que faz dela a terceira droga mais usada perdendo somente pro tabaco e pro álcool, depois da legalização nos anos 70 por parte dos holandeses alguns países europeus seguiram a mesma tendência no intuito de controlar e coibir o tráfico de drogas mais pesadas, endurecendo pro traficante e sendo menos rigoroso com os usuários. Os Estados Unidos também entraram nessa tendência e agora abordam o assunto como um problema de saúde e não um problema criminal como antes.
Na Terra dos Coffeeshops
Holanda
Já em 1976 os governantes da Holanda resolveram descriminalizar o uso da substancia, desde que a mesma fosse comprada em lugares pré estabelecidos, os famosos “Coffeeshops”, o resultado foi que o número de usuários continuou o mesmo comparados com outros países europeus, já o número de usuários de drogas mais pesadas como a heroína caiu, demonstrando que ao tirar o poder dos traficantes automaticamente se dificulta o acesso do usuário a drogas mais pesadas.
No Brasil da polarização que vivemos, dificilmente haverá alguma mudança em relação ao consumo da maconha aqui no Brasil, mas fato é que a Souza Cruz, uma das maiores fabricantes de cigarros do mundo, tem desde 1997 a marca “Marley” patenteada aqui no Brasil, mas pode ser apenas coincidência.
Por se tratar de um assunto extremamente controverso e muitas vezes tratado de modo pejorativo por religiosos e conservadores, por entenderem que a legalização de uma substância entorpecente pode ser uma ameaça aos valores familiares e sociais, há quem diga que toda mudança de paradigmas requer um tempo de aceitação e adaptação por parte de todos. Num cenário de legalização o governo poderia lucrar com impostos gerados pela iniciativa privada, por pior que seja este cenário, ver o tráfico ganhando espaço a cada dia que passa me diz as coisas só vão ficar muito piores do que já estão, concluo que o assunto está sendo abordado de forma erronia, e só uma mudança total na abordagem pode surtir os efeitos diferentes e tão desejados por todos. Mas e aí, qual a sua opinião sobre este debate? (Continua)