
Especialistas alertam que a ausência de podólogos na rede pública de Piracicaba limita a prevenção e expõe pacientes diabéticos a riscos evitáveis.
Cuidar dos pés ainda é tratado como detalhe, quando na prática pode ser a diferença entre qualidade de vida e amputação. Em Piracicaba, a ausência de podólogos na rede pública municipal escancara uma contradição na política de saúde: o discurso da prevenção existe, mas o atendimento especializado só aparece quando o problema já está instalado – especialmente entre pacientes diabéticos.
A podologia clínica é uma área da saúde voltada à prevenção, ao diagnóstico e ao tratamento de alterações nos pés, como unhas encravadas, calosidades, micoses, feridas, infecções, deformidades e problemas na pisada. “Ela vai muito além da estética, porque interfere diretamente na mobilidade, no bem-estar e na qualidade de vida do paciente”, explica o professor e podólogo Jean Santos, que atua em clínica particular. Segundo ele, dor, feridas e alterações nos pés não devem ser encaradas como algo banal. “Os pés sustentam o corpo e refletem a saúde geral.”
A mesma avaliação é feita pela podóloga Mariana Gaiad, também entrevistada na reportagem. Para ela, a confusão entre estética e saúde ainda prejudica o reconhecimento da profissão. “A podologia cuida da função e da saúde dos pés. A estética cuida da aparência. São coisas diferentes, e essa diferença tem impacto direto na prevenção de doenças”, afirma.
Para ambos os especialistas, não há dúvida: podologia é prevenção, não luxo. O acompanhamento regular permite identificar problemas ainda no início, evitando infecções, dores crônicas e complicações graves. “Tratar os pés é uma necessidade de saúde, principalmente para idosos, pessoas com doenças crônicas e trabalhadores que passam muito tempo em pé”, destaca Jean. Mariana reforça que, além de prevenir, o podólogo diagnostica e trata alterações que podem evoluir rapidamente se ignoradas.
O cuidado é ainda mais essencial no caso de pacientes diabéticos. A doença pode reduzir a sensibilidade dos pés e comprometer a circulação sanguínea, fazendo com que pequenos ferimentos passem despercebidos e tenham dificuldade de cicatrização. “Sem acompanhamento, o risco de feridas, infecções, úlceras, necroses e amputações aumenta de forma significativa”, alerta Jean. Mariana acrescenta que muitos casos graves começam com sinais simples, ignorados por falta de orientação especializada. “Feridas que não cicatrizam, infecções severas, pé de Charcot e amputações poderiam ser evitadas.”
Apesar desse cenário, Piracicaba não oferece atendimento específico em podologia na rede municipal de saúde. Em resposta à reportagem, a Prefeitura confirmou que não há podólogos no SUS local. Segundo a administração, o cuidado com a saúde dos pés ocorre principalmente nas Unidades de Saúde, por meio de avaliações clínicas, orientações educativas, identificação de fatores de risco e acompanhamento por equipes multiprofissionais.
Quando há lesões já instaladas, o município informa que os pacientes são encaminhados ao CADME (Centro de Atenção às Doenças Metabólicas), que conta com ambulatório de feridas e acompanhamento médico especializado. Ainda assim, a Prefeitura admite que não existe previsão formal ou planejamento divulgado para a inclusão de profissionais de podologia na rede pública municipal.
Na prática, o modelo adotado é reativo: o atendimento especializado entra em cena quando a ferida já existe. Para os podólogos ouvidos, esse é justamente o problema. “Muitos casos que chegam aos ambulatórios poderiam ser evitados com acompanhamento regular na atenção básica”, avalia Jean. Mariana é mais dura: “É um descaso com a população. A podologia é uma área da saúde e já está presente na rede pública de outros municípios.”
Além do impacto direto na vida dos pacientes, os especialistas apontam que a ausência da prevenção também pesa no bolso do sistema público. Do ponto de vista técnico, investir em consultas regulares custa muito menos do que tratar complicações avançadas. “A prevenção evita internações, cirurgias, uso prolongado de antibióticos e amputações”, explica Jean. Mariana lembra que, em alguns casos, a complicação pode ser fatal.
Mesmo com avanços na regulamentação da profissão, o podólogo ainda enfrenta baixa valorização no sistema de saúde. Falta normalização, políticas públicas específicas e inserção efetiva no SUS. Enquanto isso, pacientes seguem divididos entre pagar por atendimento particular ou conviver com riscos que poderiam ser evitados.
Para os especialistas, a mensagem é clara: ignorar os pés é ignorar a base do corpo. “Pés saudáveis garantem mobilidade, autonomia e qualidade de vida”, resume Mariana. Em Piracicaba, o cuidado até existe no papel, mas a prevenção especializada segue fora da rede – e quem paga o preço são os pacientes.


Prevenção custa menos que amputação, mas segue fora da atenção básica em Piracicaba – Foto: Divulgação