Quando o fato fala sozinho, o boato grita

Há cidades onde as coisas acontecem, os projetos são anunciados, as obras são inauguradas e, ainda assim, permanece no ar uma estranha sensação de vazio. Algo foi feito, mas ninguém sabe exatamente o que, por que ou para quê. Não se trata de incapacidade operacional. Trata-se de comunicação tratada como acessório de gestão, como ornamento institucional, como algo que se resolve depois que o problema já apareceu.

O fato é simples e cruel. Quando a comunicação não organiza o sentido, o sentido se desorganiza sozinho. Não existe vácuo narrativo. Onde a explicação não chega, a desconfiança se instala. Onde falta contexto, sobra suposição. E suposição, em gestão pública, costuma virar convicção com velocidade assustadora.

COMUNICAÇÃO NÃO É PROPAGANDA

Propaganda faz barulho. Comunicação constrói entendimento.
Enquanto uma se preocupa em aparecer, a outra precisa se responsabilizar por explicar. O erro começa quando se acredita que postar é comunicar, que repetir slogan é esclarecer e que boa intenção substitui método.

Sem comunicação estratégica, a ação vira evento isolado. O projeto vira frase solta. O governo passa a administrar fatos como quem tenta apagar incêndio com copo de água. Tudo é reação. Nada é condução. O improviso vira regra e a narrativa passa a ser escrita por terceiros.

 

O SILÊNCIO INSTITUCIONAL SEMPRE COBRA SEU PREÇO

Toda decisão pública gera dúvida. Isso não é falha do cidadão. É parte natural do processo democrático. O erro está em fingir que a dúvida não existe. Em acreditar que o tempo resolve. Não resolve. O tempo fermenta. A dúvida amadurece. O boato ganha musculatura.

Comunicar é antecipar o “porque sim” antes que o “porque não” vire consenso. É administrar o fato enquanto ele ainda é fato e não quando já virou versão. Quando o poder público executivo entra atrasado na conversa, entra frágil. E quem entra frágil costuma sair desacreditado. Depois não adianta se queixar dos boatos, memes e das piadas.

 

GOVERNAR TAMBÉM É CONDUZIR O ENTENDIMENTO

Comunicação pública não é maquiagem institucional. É condução. Condução estratégica.
É pegar o cidadão pela mão e dizer para onde se está indo e por que aquele caminho foi escolhido. Não porque o cidadão seja incapaz, mas porque o caminho raramente é óbvio.

Gestões que ignoram isso vivem reféns do improviso. Gastam mais energia se defendendo do que construindo confiança. E confiança, diferente de obra, não se inaugura com placa.

Quando isso não acontece, a gestão vira aquele professor que passa a matéria inteira, mas nunca confere se alguém aprendeu. Depois se surpreende com as notas da prova final.

No fim, a ironia é delicada. Gestões que se comunicam mal reclamam que as pessoas não entendem. Talvez entendam, sim. Apenas perceberam que ninguém estava disposto a explicar com calma. E quando a comunicação falha, não é a imagem que sofre primeiro. É a confiança. E confiança, diferente de post, não se edita depois. E isso costuma custar caro.

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