Solidariedade, voluntariado e transformação social

Felipe Cypriano, idealizador do Ajuda do Bem Piracicaba, conta sua trajetória que começou como um gesto de empatia.

No Dia das Crianças de 2022, Felipe Cypriano conta que foram distribuídos 150 brinquedos e mais de 350 kits de guloseimas para as crianças do Bosque dos Lenheiros, Kanaa 3, Vila Cristina e comunidade União – Foto: Divulgação

 

Por RENATA PERAZOLI
Jornalista da redação de O Democrata

 

A solidariedade é o fio condutor da trajetória de Felipe Cypriano, idealizador do projeto Ajuda do Bem Piracicaba. O que começou como um gesto de empatia se transformou em uma rede de apoio que impacta diretamente a vida de famílias em situação de vulnerabilidade na cidade e na região. Mais do que doações, o projeto promove dignidade, acolhimento e esperança.

No período do Natal, essa atuação ganha ainda mais significado, ao levar alimentos, presentes e afeto a crianças, idosos e mães solo. Em uma época marcada pela partilha, o Ajuda do Bem mostra que a verdadeira celebração acontece quando a solidariedade sai do discurso e se transforma em ação concreta.

Quem quiser colaborar com o Ajuda do Bem pode fazer doação em pix para o CPF 320.864.768-92, em nome do Felipe Cypriano. Informações: (19) 97112-9417.

Confira a entrevista na sequência.

O que inspirou a criação do Ajuda do Bem Piracicaba?

O Ajuda do Bem Piracicaba nasceu de um desejo muito genuíno de transformar a nossa comunidade por meio da solidariedade e do apoio mútuo. A inspiração veio de situações simples do cotidiano, aquelas que muitas vezes passam despercebidas, mas que revelam realidades profundas. No dia a dia, comecei a perceber quantas pessoas ao nosso redor estavam enfrentando dificuldades enormes, muitas vezes em silêncio, enquanto ao mesmo tempo existiam outras pessoas com vontade de ajudar, mas sem saber como, onde ou por quem começar.

Como foi a percepção disso tudo durante a pandemia?

Durante a pandemia, essa percepção se intensificou de forma muito forte. Foi um período em que as fragilidades sociais ficaram escancaradas. Vimos famílias que nunca haviam pedido ajuda passando por necessidades básicas, como falta de alimentos e produtos de higiene. Ao mesmo tempo, surgiam inúmeras pessoas solidárias, com o coração disposto a contribuir, mas sem uma ponte que conectasse essas duas realidades.

Foi na pandemia então que surge o Ajuda do Bem?

Foi aí que decidimos criar o Ajuda do Bem Piracicaba. A ideia sempre foi simples, mas muito poderosa: ser um elo entre quem precisa de ajuda e quem deseja ajudar. Uma iniciativa baseada na confiança, na empatia e no respeito, sem burocracia, sem julgamentos e com foco total no ser humano. Nosso objetivo sempre foi construir uma comunidade mais unida, onde o bem se multiplica por meio de pequenas ações que, somadas, geram grandes transformações.

A vontade de ajudar sempre fez parte da sua trajetória pessoal?

Na verdade, essa vontade não surgiu de uma hora para outra. Ela foi crescendo e se fortalecendo ao longo da minha trajetória de vida. Sempre gostei de estar próximo das pessoas, ouvir histórias, entender realidades diferentes da minha e perceber como cada ser humano carrega suas próprias lutas.

No início, ajudar era algo pontual, quase instintivo. Mas, com o passar do tempo, especialmente participando de ações sociais e vendo de perto os resultados concretos dessas iniciativas, percebi o quanto atitudes simples podem gerar impactos profundos. Ver uma família sorrindo ao receber uma cesta básica ou uma criança feliz com um pequeno gesto muda completamente a nossa forma de enxergar a vida. A solidariedade nos ensina a sermos mais humanos, mais gratos e mais conscientes do nosso papel na sociedade. Foi assim que ajudar deixou de ser algo esporádico e se tornou um verdadeiro projeto de vida para mim.

Ao longo dessa jornada, houve algum momento que marcou você de forma especial?

Sim, muitos momentos marcaram profundamente essa caminhada, mas alguns ficam gravados no coração de forma indescritível. Um deles aconteceu durante uma ação de entrega de doações. Enquanto entregávamos os alimentos, uma senhora, muito emocionada, ajoelhou-se aos meus pés e começou a agradecer pela ajuda recebida. Aquela cena me paralisou por alguns segundos. Não pelo gesto em si, mas pela intensidade da gratidão expressa naquele momento.

Aquilo me fez entender, de maneira muito clara, que para quem recebe, aquela ajuda representa muito mais do que alimentos ou itens materiais. Representa dignidade, esperança e a certeza de que não estão sozinhos.

Outro momento que sempre me emociona são os abraços das crianças. Abraços apertados, sinceros, cheios de alegria e esperança. Ver o brilho nos olhos delas, ouvir risadas e palavras simples, mas carregadas de significado, é algo que não tem preço. Essas experiências reforçam diariamente o motivo pelo qual seguimos em frente, mesmo diante das dificuldades.

O que significa ser voluntário na sua visão?

Ser voluntário, para mim, vai muito além de doar tempo ou recursos materiais. É uma escolha diária. Uma escolha consciente de olhar para o outro com empatia, respeito e sensibilidade. É entender que todos nós temos algo a oferecer, independentemente da condição financeira ou da quantidade de tempo disponível.

O voluntariado também é um grande aprendizado. Muitas vezes, acreditamos que estamos indo ajudar, mas voltamos para casa com muito mais aprendizados do que ensinamentos. Aprendemos sobre gratidão, humildade, resiliência e esperança.

Ser voluntário é acreditar que pequenas atitudes podem transformar realidades. É transformar compaixão em ação concreta. É entender que o coletivo tem uma força imensa e que, juntos, conseguimos ir muito mais longe do que imaginamos.

Que conselho você daria para quem deseja começar no voluntariado, mas ainda tem receio ou dúvidas?

Meu principal conselho é simples, mas muito importante: não tenha medo de ser bom. Muitas pessoas acreditam que precisam fazer grandes feitos ou ter muito tempo disponível para ajudar, mas isso não é verdade. Qualquer atitude, por menor que pareça, já faz uma enorme diferença na vida de alguém.

O primeiro passo é olhar ao seu redor. Observe sua comunidade, converse com pessoas que já atuam como voluntárias, procure projetos locais que estejam alinhados com seus valores. O mais importante é começar.

Não se cobre tanto. Às vezes, um simples gesto de atenção, uma escuta sincera ou uma palavra amiga já são suficientes para transformar o dia de alguém. A solidariedade é um caminho de crescimento para todos os envolvidos.

Quais são os maiores desafios enfrentados no voluntariado atualmente?

Um dos maiores desafios é, sem dúvida, a administração do tempo. Muitas pessoas querem ajudar, mas precisam conciliar trabalho, família e outras responsabilidades. Outro desafio importante é lidar com o grande volume de pedidos de ajuda. São muitas demandas e, infelizmente, nem sempre conseguimos atender a todas.

A falta de recursos também é uma realidade constante. Mesmo com muita boa vontade, existem limitações financeiras, de material e de pessoas envolvidas no projeto.

Para superar esses desafios, é fundamental reconhecer nossos limites e aprender a dizer não quando necessário, sem culpa. Também é importante organizar uma rotina, dividir tarefas e buscar parcerias. A união de esforços faz toda a diferença.

O que o Ajuda do Bem aprendeu ao atuar em diversas comunidades de Piracicaba e região?

Aprendemos que a vulnerabilidade social pode atingir qualquer pessoa. Muitas famílias que ajudamos jamais imaginaram passar por esse tipo de dificuldade. A necessidade não tem rosto, classe social ou endereço fixo.

Também aprendemos muito sobre a força das comunidades. Mesmo com pouco, muitas pessoas se apoiam mutuamente. Vimos mães solo, idosos e crianças enfrentando desafios enormes com uma dignidade admirável.

Essas experiências reforçam a importância de acolher sem julgamentos, de ouvir com atenção e de agir com respeito. Cada entrega nos aproxima ainda mais das realidades vividas e fortalece nosso compromisso em levar dignidade e esperança a todos os bairros.

Alguma história envolvendo crianças marcou você de forma especial?

Sim, várias. Uma das mais marcantes foi quando uma menina de apenas seis anos me pediu um shampoo. Ela contou que lavava o cabelo apenas com sabão em pedra, porque a família não tinha condições de comprar produtos de higiene. Aquela inocência e sinceridade me tocaram profundamente.

Outra situação foi quando uma criança me pediu um pão com chocolate, algo extremamente simples para muitas pessoas, mas que para ela era um verdadeiro sonho. Esse pedido tão singelo foi o que nos inspirou a criar o Natal Solidário, em 2017, com o objetivo de levar um pouco mais de alegria, carinho e dignidade para as crianças durante as festas.

Você pode contar uma história de alguém que se transformou através do voluntariado?

Posso sim. A Nathalia é um exemplo muito bonito. Ela começou como voluntária, com o desejo sincero de ajudar o próximo. Com o tempo, foi se envolvendo cada vez mais com o projeto e hoje, junto com uma equipe, entrega de seis a dez cestas básicas por mês para famílias que realmente precisam.

Além de transformar a vida dessas famílias, a própria Nathalia também se transformou. O voluntariado era um sonho que ela tinha, e hoje ela vive esse propósito de forma concreta. A história dela inspira muitas outras pessoas a se envolverem e acreditarem que é possível fazer a diferença.

Quais são as principais campanhas realizadas pelo Ajuda do Bem Piracicaba?

Ao longo do ano, realizamos diversas campanhas, como o Prato Solidário, Dia das Crianças, Páscoa Solidária, Natal Solidário, Campanha do Agasalho e a Campanha do Leite, Achocolatado e Bolachas durante as férias escolares.

O impacto dessas ações vai muito além da entrega de itens essenciais. Elas fortalecem os laços comunitários, promovem solidariedade e levam esperança para quem está enfrentando dificuldades. Muitas vezes, uma cesta básica, um brinquedo ou uma roupa quente fazem toda a diferença.

Ao longo dessa trajetória à frente do Ajuda do Bem, o que representa, para você, a maior recompensa pessoal, especialmente quando o reconhecimento não vem de forma visível ou material?

Sempre digo para minha esposa, Viviane Campacci Cypriano, que, se uma única pessoa entre as tantas que já ajudei me colocar em suas orações ou simplesmente desejar algo de bom para mim, isso já é a minha maior recompensa. Saber que plantei uma semente de esperança ou recebi um pensamento positivo em troca, mesmo que silencioso, é um presente imensurável. Esse sentimento de conexão, gratidão e propósito não tem preço.

Como as pessoas podem se tornar voluntárias do Ajuda do Bem?

Quem quiser ajudar pode entrar em contato pelo Instagram @ajudadobempiracicaba. O voluntário pode ajudar na montagem e entrega das cestas ou até adotar uma família. É uma experiência transformadora, que cria laços de empatia e solidariedade.

Qual é a maior recompensa pessoal por realizar esse trabalho?

A maior recompensa é espiritual. É a minha ponte com Deus. É a sensação de dever cumprido, de amor ao próximo e de propósito. Sempre digo que, se uma única pessoa me colocar em suas orações ou desejar algo de bom para mim, isso já é tudo.

O que você pediria hoje à comunidade de Piracicaba?

Mais amor ao próximo colocado em prática. Atitudes valem mais do que palavras. As crianças não podem pagar pelos erros dos adultos. Se tivermos mais generosidade e menos julgamento, podemos transformar vidas e a nossa cidade.

Uma palavra que define o Ajuda do Bem em 2025?

Superação. Mesmo com menos recursos, nunca deixamos de acreditar. Deus nunca nos abandonou.

Quais são os planos para o futuro?

Queremos fortalecer ainda mais o projeto, ampliar nossa atuação e ajudar ainda mais crianças e idosos. Estamos cheios de esperança para fazer de 2026 um ano de cuidado, transformação e novas conquistas.

O que falta para um Natal 2025 melhor?

Recursos. Precisamos de apoio para comprar alimentos, chocotones e itens que tornem o Natal especial para crianças e idosos. Cada contribuição faz diferença.

 

Em 2024, o Ajuda do Bem distribuiu mais de 120 chocotones e refrigerantes para a comunidade Evolução Kanaa – Foto: Divulgação

 

Ação de Páscoa solidária em 2023 distribui caixas de bombons para alunos da escola de futebol Poderoso e crianças carentes no Mário Dedini – Foto: Divulgação

 

No Dia das Crianças 2024, a comunidade Conquista recebeu bolas e guloseimas, atendendo mais de 120 crianças – Foto: Divulgação

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